MÃE NUNCA VAI, MÃE SEMPRE FICA



Ontem seria um dia de festa, ou melhor, o terceiro dia de festa (o aniversário de minha mãe), pois era assim que ela passou a comemorar o seu aniversário. Eram três dias de comemoração!

Ontem, passei o dia me deleitando em lembranças muito queridas e só hoje tenho condições de expressar em palavras uma pequena parte do que guardo no meu coração. As festas começavam no terceiro dia que antecedia o seu aniversário. Esse era dedicado ao Grupo da Igreja, com muito bolo, refrigerante e café depois das orações feitas com carinho pelas amigas de velha data, sempre com lindos louvores. Agradecer a Deus por mais um ano de vida era a sua maior alegria.

O próximo dia era destinado aos vizinhos, aos amigos mais chegados e muitos conhecidos. As panelas ficavam cheias de canjicão, arroz doce e outras delícias e ela recebia a todos com muita alegria, sempre muito conversada e agradecida.
O dia 25 era o ápice do evento. Uma das minhas irmãs mais velhas passou a fazer a comemoração com direito a bolo confeitado, buquê de rosas vermelhas e um grande almoço para a família em um restaurante da cidade.

Era um dia intenso. Muito corre-corre e preparativos e muitos presentes! Nesse dia, ela se esmerava no vestir. Deixava o vestido estampadinho de lado e mandava fazer um liso, de cor suave, de linho. Uma das irmãs mais velhas, era a sua costureira e também ganhava uns muito "chiques", vindos dos EUA.  O de festa era  com o decote quadrado, passado o ponto richelieu em volta; com manguinhas, dois bolsos para guardar as chaves; um pentezinho para pentear os lisos e já prateados cabelos e um "dinheirinho" para alguma necessidade.

As sandálias de couro eram trocadas por sapatinhos bem confortáveis e, para completar, brincos de oco negro de ouro, uma correntinha no pescoço, o relógio dourado no pulso e as alianças no dedo, bem gordinho. As unhas também ganhavam cor. Eram pintadas com um rosa claro ou nude. Um pouquinho de pó de arroz no rosto e um leve Batom rosado. Só para dar uma corzinha. Assim ficava pronta para a festa. Nesse dia ela ganhava presentes e a atenção de todos. Era um dia memorável. A alegria era tanta que ela queria dividir com todos, amigos, vizinhos e parentes.

Envolta em minhas lembranças, volto um pouco mais no tempo para lembrar de uma senhora, ainda jovem que vendia doces de banana nas ruas de Valadares. Era a minha querida mãe, Terezinha Angélica ( in-memorian). Teve um tempo muito difícil. Ela e o papai, Jaime Alves ( in-memorian), chegaram a essa cidade, Governador Valadares, em uma Kombi, junto com o meu tio João Alves ( in-memorian), irmão do papai, amigo inseparável e muito bom. E com eles, uma carreirinha de filhos, sendo que uma das mais velhas ficou casada no Rio de Janeiro, ainda muito nova.

Chegamos à Avenida Brasil, ainda de terra batida. O papai comprou uma Fábrica de doces de banana e se pôs a trabalhar intensamente com a mamãe e as filhas. Foi um tempo de muita luta. O papai nos tachos de doce, as mocinhas, minhas irmãs, ajudando a embalar e a mamae passou a ser a vendedora. Imagino a cena. Ela ainda uma jovem senhora e muito bonita, a sua figura frágil, andando pelas ruas, debaixo do sol quente, com os braços carregados de pacotes de doce de banana. Entrando e saindo dos comércios, oferecendo o seu doce para que, com a sua venda, pudesse comprar os alimentos para a grande família e fazer assim o seu sustento.

Como sempre, era muito conversada, então  conseguia fazer bons  negócios, de manhã e de tarde. Rapidamente, conseguiu compradores e fez muitos amigos. Com o seu jeito simples de ser, honesta, trabalhadora, inteligente e muito educada. Era boa em Português e também em Matemática. Sendo até professora do meu pai, na arte de fazer as quatro operações num átimo, como gostava de dizer.

Imagino a sua figura pequena indo para as ruas, carregada de doces e voltando com os alimentos para os seus rebentos. Não devia ser nada fácil. O sol escaldante, poeira e suor, e ruas, e comércios, pessoas desconhecidas, e muitas orações para efetivar boas vendas.

A família era organizada, cada um tinha a sua ocupação. Tudo fluía da melhor forma. Uma ficava por conta da casa e do fogão, outra para tomar conta dos pequenos, eu e o meu irmão António Sérgio, Toninho, e as outras na pequena fábrica, juntamente com o papai que ficava mexendo as bananas maduras no tacho. Também imagino a sua figura alta e forte, batendo o doce até dar o ponto certo para o corte. O calor do fogo, as labaredas e o cansaço, horas passadas em pé, fazendo o mesmo movimento. Ele sempre de sapatos, calça de vinco, camisa por dentro e cinto.

 Mas tinha que perseverar na labuta, pois tinha lindos filhos para alimentar, vestir e educar. Todavia, éramos bons filhos. Obedientes, tranquilos e organizados. Acho que éramos parecidos com uma pequena "colmeia", todos prontos para ajudar.

 O tempo passou, nós viramos adultos, e a mamãe  e  o papai se tornaram idosos. Os dias também não foram fáceis. Os filhos casaram, a casa ficou vazia e vieram as enfermidades. A mamãe, algumas vezes ficava com a "memória fraca". As lembranças brincavam com ela de forma terrível. Era assistida por muitos médicos, um deles era até de fora da cidade. Depois conseguiu um que, felizmente, pôde ajudá-la. Ainda era um "tabu", a tão triste e infeliz, "depressão", que, agora, apesar de tanto conhecimento, ainda é tratada com muito preconceito.

Nesses longos dias, em que se ausentava  do presente, o papai não desistiu dela. As filhas mais velhas se revezavam em seus cuidados. Deixavam as suas casas, famílias e vinham em seu socorro.

Muito tempo depois, eu e meu irmão, ainda novos, também auxiliávamos nos cuidados, juntamente  com o papai. Mas o papai também tinha os seus dias ruins. A saúde se abalava. E, em uma dessas enfermidades, o meu pai, tão querido e amado, se foi. Lutou bravamente. Teve os cuidados da mamãe e dos filhos. Mais uma vez todos revezavam. Eram bons cuidadores. Então ele  foi recolhido pelo Senhor, a quem  serviu durante toda a sua vida e só assim pode descansar de tanta luta. Foi um bom pai. Rígido, bravo, mas muito zeloso.

Ele se esmerava em nos ensinar como colocar a colcha esticadinha na cama, a lavar os copos, colocando-os contra a luz para ver se estavam bem limpos, a manter a geladeira e o filtro sempre com água fresca, a varrer o terreiro, só tirando o cisco, sem tirar a terra do lugar, a manter as luzes apagadas e as torneiras bem fechadas para economizar, a não desperdiçar comida deixada no prato, as roupas bem estendidas no varal.

Tantas e tantas outras coisas muito importantes que nos eram ensinadas com muito carinho. Até aprender a dirigir "caminhão", ele me ensinou. Quanta sabedoria!  A mamãe ficou conosco por mais alguns anos, dando-nos o prazer de sua companhia. Aqui eu agradeço a Deus por ter me dado um ano ao seu lado e poder ter oferecido para ela  sopas quentinhas que eram degustadas todas as noites. E também chegou o dia de sua partida. Inventou uma desculpa e calmamente partiu para os braços do Pai. Para junto do Deus a quem amou durante toda a sua vida. O Deus que a ajudou nos momentos de dor, nas necessidades e que, na hora certa, a recolheu para si. Ficaram as lembranças boas e queridas.

Eu fui escolhida para estar ao seu lado, como uma amiga, na hora de sua partida. Simplesmente parou de respirar e se foi. Sendo assim, reforço. Mãe nunca vai, Mãe sempre fica. Fica nas histórias que contava, nas conversas calmas, nos ensinos, no seu passado cheio de recordações. Fica nas artes manuais  que habilidosamente desenvolveu em mim. Nos crochês, no ponto segredo, que não consegui aprender; nos  tricôs, sendo os últimos lindos suéteres para os genros (a minha parte era fazer as costas; bordados de ponto cheio, rococó, de fitas e casinha de abelhas). Nas costuras (quebrei uma agulha no dedo e deu muito trabalho para o papai retirar), era muito habilidosa; nas florzinhas de cetim, armadas com o ferrinho esquentado no fogão a lenha, (eu queimei um) e nas refeições do dia-a-dia, também no grande fogão à lenha.


Tive o prazer de ajudá-la algumas vezes. Sendo eu ainda pequena, mas muito curiosa. Na agilidade para fazer várias coisas ao mesmo tempo. No café da manhã e da tarde, religiosamente, com o leite fervido e o pão com manteiga, comprados na padaria da esquina.  Nos almoços de domingo. Nos desenhos e versos para os netos. Na melodia cantada nos aniversários e até escrita em uma carta para uma neta querida. Nas roupinhas para minhas bonecas, que eu insistia  em colocar  o véu, quando o vestido era de noivinha.
Nos chazinhos e remédios caseiros que curava a dor de ouvido, o joelhinho ralado e até  o coração partido.  Nos conselhos sempre muito bem dados  para quem os pedia. Nas cartas que nos enviava sempre metódica, com começo, meio e fim. Iniciava com o nome da cidade e data; logo após, uma saudação. Depois era dado às notícias e indagações breves. Em seguida fazia um comentário dos fatos recentes e terminava externando o seu desejo de boas aventuranças. Era simples. Apenas três parágrafos. Muito bem escritos como se seguissem as normas da ABNT e tivesse corretor ortográfico. Exímia professora.
Minha mãe fica na viagem feita aos EUA, onde foi recebida por um motorista em uma Limousine. Fica na bondade para quem quer que fosse e dela precisasse, sendo por um prato de comida ou até mesmo apenas uma palavra amiga. Fica nos lacinhos de fitas colocados, cuidadosamente, nos cabelos das lindas meninas. Fica também nas histórias da Bíblia Sagrada sempre contadas para embasar algum ensinamento que estava sendo ministrado naquele momento. Em sua voz já trêmula entoando os louvores na Igreja que amava. Nas orações intercedendo por cada uma das oito filhas e do único filho e também para os genros e nora, netos e bisnetos. Não se esquecendo nunca dos amigos, vizinhos e apenas conhecidos.

Ela fica no seu amor pelo nosso Deus e Senhor e no legado que nos deixou e que tem nos sustentado e contribuído para a nossa vida familiar e também na educação dos nossos filhos.

Gostaria Também de ser merecedora de boas lembranças, de dar bons ensinamentos,  para que, na hora em que o Senhor me chamar,  eu possa descansar em seus braços na certeza de que cumpri com o meu dever aqui na terra.

Mãe nunca vai. Mãe sempre fica. Fica na saudade, na beleza e no exemplo de vida.

Tereza Campos Machado


“O Senhor te abençoe e te guarde;

O Senhor faça resplandecer o seu rosto sobre ti, e tenha misericórdia de ti;

O Senhor sobre ti levante o seu rosto e te dê a paz”. Números 6.24-26




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