Sr. TEMPO

Sr.Tempo
Provérbios 16.24
“Palavras amigas são doces como mel; dão ânimo e criam novas forças”.



Hoje, o Sr Tempo veio me visitar, metódico como sempre. Suas visitas são prazerosas, pois temos oportunidade para falar sobre diversas coisas. Sendo douto, tem a fala interessante e a memória  bastante avivada, não faz acepção de pessoas e trata a todos com muita simpatia e generosidade.

Fiz o seu lanche preferido. O bolo d'água, a broa de fubá com erva-doce, o canjicão  com coco e o arroz doce, igual o da mamãe e o que não podia faltar: o bolinho de chuva e uma boa caneca de queimadinha, que o papai adorava e sem esquecer o bom queijo de minas.

Ele tem um gosto mineiro bem apurado. Somos amigos antigos e quando estamos juntos aproveitamos para relembrar o passado, falar sobre o presente e fazer planos para o futuro; traçar metas e aproveitar os anos vindouros.

Hoje ele se ateve a falar sobre a minha meninice. Quanta coisa interessante ele se lembra. Tem um jeito de falar dos acontecimentos passados de uma forma simples, mas com riqueza de detalhes. Pôs-se a sorrir quando recordou de como eu era levada e conseguia fazer muita arte mesmo andando com o meu pezinho "torto", correndo sobre o balcão do Armazém de secos e molhados do papai em Duque de Caxias, RJ, minha cidade  natal. Dos meus olhos verdes, cabelos e pele clara, muito conversada, alegre e curiosa.

Então ele se pôs a falar sobre o papai e a mamãe, Terezinha Angélica e Jaime Alves, (in-memorian) do amor e consideração que tinha pelos dois. Disse que eram pessoas boas e que gostavam de ajudar ao próximo, mesmo já tendo uma grande família para sustentar. Falou carinhosamente dos cuidados deles para comigo. Na procura  incansável do papai em busca de uma solução para o meu "pezinho", até que encontrou: Ele ficou sabendo de um Hospital, na Zona sul, que tinha um Médico fazendo experiências com crianças para deixar o pezinho perfeito e ele não mediu esforços para conseguir o que tanto queria. Foram muitas viagens ao Hospital, sempre acompanhado de uma  das minhas irmãs, que se tornou a minha ajudadora, ainda uma menina.

Nesse momento o seu olhar ficou vago e marejado de lágrimas ao se lembrar dos velhos amigos. Disse que o papai ficava orgulhoso quando eu já era uma mocinha e andava de sapatos de  "saltos altos".  Então começou a falar das minhas irmãs e do meu irmão. Falou sobre cada um, os nomes, suas características, dos seus gostos e de como foram bem criados. Todos muito bonitos e educados. Frisou que eram lindas moças e que se tornaram belas jovens senhoras com famílias muito amadas;  assim como o meu irmão, um homem bonito e íntegro, cheio de amor  pelas irmãs e  sua família.


Aproveitei uma pausa que ele deu, envolto em seus pensamentos e falei sobre os meus irmãos. Do amor  incondicional que nutria por cada um, de suas qualidades, preferências  e da real importância que tem em minha vida. Das minhas sete irmãs, cada uma com um jeito diferente de ser, de suas risadas, o tom da voz, as habilidades que cada uma tem; do meu irmão e companheiro de infância e bem parecido comigo, de nossas leituras das revistas em quadrinhos debaixo da cama dos nossos pais. Muito bem escondidos, para ninguém nos incomodar. Assim reafirmo o meu amor por cada um dos oito irmãos que o Senhor me deu.

Depois dessa pausa, ele novamente tomou posse da conversa e se referiu mais uma vez aos meus pais. Disse-me para nunca esquecer os seus ensinamentos, que eles são preciosos e devem ser repassados na íntegra para os meus filhos e eu afirmei que assim tenho feito.

Ficamos proseando por muitas horas, o Sr. Tempo é um autodidata nato, seus conhecimentos são enriquecedores e eu amo ouvi-lo versar sobre vários assuntos desde o passado à atualidade. Quanta sabedoria! Às vezes, dávamos grandes gargalhadas, em outras, fazíamos um silêncio quase palpável devido às queridas memórias ainda vivas do passado, já um pouco distante.

O Sr. Tempo discursa sobre todos os assuntos, pois gosta de estar sempre muito bem informado e eu me deleito em sua presença. Disse-me que os dias estão ficando cada vez mais difíceis e que o mundo está se transformando  em uma guerra de rivalidades e que, apesar da facilidade dos meios de comunicação, as pessoas estão cada vez mais distantes umas das outras e solitárias em meio a multidão. Reafirmou que a família é a base de tudo e que apenas os familiares estarão presentes quando nós precisarmos.

Falou ainda sobre os meus filhos e que estava muito feliz vendo os seus sonhos serem realizados e que ter um bom Advogado e uma boa Nutricionista na família é dose dupla de felicidade. Frisou que, enquanto permanecermos unidos eu, Richer Nicolas e Mirelly seremos fortes o suficiente para enfrentarmos todas as batalhas que porventura vierem  sobre nossa vida. Destacou que o amor entre mãe e filhos é um elo eterno, que a personalidade de cada um deve ser respeitada para se ter uma boa convivência e manter a  cumplicidade.

Lembrou ainda dos meus poucos amigos e disse que não importa a quantidade e sim a qualidade daqueles que me trazem alegria. Mencionou o avô dos meus filhos, meu querido,  Sr Efigênio Fideles, homem íntegro, amoroso e presente em nossa vida.  Fez menção também a minha saúde, disse estar um pouco preocupado, mas que eu estava bem assistida e que Deus estava no controle de tudo, que brevemente eu ia me restabelecer, só  precisava ter  paciência e fé. Quanto a alguns constrangimentos devido a falta de informação das pessoas, sobre esse assunto, "A depressão", ele reafirmou que é um transtorno do humor grave e frequente. É uma doença que está afetando  cada vez mais a população, e que ela necessita ser identificada, diagnosticada, tratada e ter o apoio dos familiares e das pessoas mais próximas. Não é falta do que fazer,  preguiça  ou vontade de chamar a atenção. É uma doença com sintomas físicos e psíquicos,  claros e intensos, tais como, tristeza sem motivo aparente, choro, desânimo e pensamentos negativos  Pode ser herdada e se tornar crônica, necessitando de acompanhamento especializado, medicamento constante e ter ciência  de sua necessidade. O Sr. Tempo me disse, ainda, que devo relevar os comentários, apenas seguir o tratamento prescrito pelo meu exímio "Doutor" e ter fé no nosso Deus.

Ninguém tem receita para se viver bem. Só mesmo com o passar dos anos é  que se atinge um grau de maturidade e consequentemente  se faz melhores escolhas, percorre  caminhos mais iluminados e prossegue em busca de novas realizações.  Ele me disse que não devo me preocupar tanto com alguns contratempos, pois são fatos corriqueiros e que sempre acabam sendo acertados, contudo ponderou que menos altruísmo faz bem.

Sr.Tempo Insistiu para que eu fizesse  algumas viagens, pois corroboram para o meu bem estar. São novos ares, pessoas diferentes e muitos passeios. Expressou os seus sentimentos  pela perda da Amora e fez festa para a nossa bagunceira Aurora, e riu das histórias que contei dela e do Fred. As  horas passaram depressa, ainda havia muito que conversar, então ele citou alguns versículos bíblicos para embasar os últimos momentos de conversa. É muito enfático na questão da fé. Fala sobre o Senhor com muita autoridade e reverência e quer que eu continue fazendo a minha leitura diária da "Palavra revelada", que é o alimento para a nossa alma e insistiu que eu prossiga nas "Mensagens com Louvor", que gosta muito de ler.

Aconselhou-me a manter acesa a chama da minha fé, que foi a herança que os meus pais me deixaram. Que ela deve ser avivada a todo o momento e permanecer acesa no coração dos meus filhos, que também receberão de mim essa preciosa herança, depois que os meus dias ao lado deles chegarem ao fim. Sendo assim é preciso que aproveitemos ao máximo a companhia de cada um para que seja registrada uma boa lembrança, como as que eu tenho dos meus saudosos pais.

O querido Sr. Tempo Incentivou-me a continuar a minha busca pelo conhecimento, pois esse "bem" ninguém é  capaz de nos tirar e não há idade estipulada para engajar em um novo Certificado. O sol já estava longe quando ele se levantou para se despedir. Deu-me o seu abraço amigo, um longo aperto de mão, passou seus longos dedos no meu rosto, sorriu das linhas de expressão que já estão presentes, dos fios prateados em minha cabeça e salientou que estou muito bem, que a maturidade tem uma beleza diferenciada. Deu um longo suspiro com um sorriso brejeiro e mais uma vez reforçou todos os conselhos, que são bem-vindos e são dados  em cada novo encontro. Externei o meu carinho por ele, que amava suas visitas anuais, que as esperava ansiosa, então agradeci pelos preciosos ensinos que me trouxera, pois sei que são do fundo do coração. Nós  nos  despedimos e ele se pôs a andar com o seu jeito gracioso, ora com os passos apressados, ora lentos.

Fiquei olhando a sua figura até onde minha vista pôde alcançar e então deixei as lágrimas rolaram pelo meu rosto, já saudosa de sua presença. O Sr. Tempo não para, é um viajante solitário e quer estar em todos os lugares, junto daqueles que ama, com o seu jeito incondicional de amar.

Fiz um breve relato desse quinquagésimo sexto encontro e almejo ter muitos outros. Ter o Sr. Tempo como meu aliado é ter a certeza de que todos os dias serão repletos de felicidade e que serei amada um dia mais do que o outro, juntamente com o meu Deus e Senhor, que é o autor da minha fé.

A você que leu até aqui, eu agradeço por fazer parte da minha história. Amo a vida de cada um, com o meu jeito de amar... um dia mais do que o outro!!!

                                                                            Maria Tereza Machado






SOBRE A AUTORA: Maria Tereza Machado é uma mulher doce e amiga. Com palavras profundas, ela percorre o passado, trazendo à memória sentimentos e emoções guardadas no âmago do ser. Eu tenho aprendido com ela a valorizar sentimentos de amor e gratidão por meus pais, amigos e familiares de ontem, hoje e sempre.










2 comentários:

  1. Que lindo, amiga. Amei!! Deus abençoe a sua vida. Obrigada pela oportunidade de concretizar mais um sonho.

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  2. Um texto excepcional merece ser publicado. Parabéns.

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FILHA AMADA Não fui criada por  meu pai.  Separamo-nos quando eu tinha apenas sete anos de idade. Cresci sem a referência do cuidado paterno...